A TÁBUA OUIJA

 A TÁBUA OUIJA 

 

Os jovens são, em sua própria natureza, muito curiosos, principalmente em relação ao proibido e ao sobrenatural. E no afã de sua juventude são, muitos, inconsequentes, não pesando o que pode advir de suas escolhas e de seus atos.  

poucos anos atrás, fiz amizade com uma família que, depois vim a saber, morou durante muitos anos no meu bairro de origem. Frequentando sua casa, conversávamos sobre muitos assuntos e sempre havia um caso que eu ouvia ou eu mesmo contava. Muitas histórias, das quais algumas ainda me lembro vivamente, tinham um cunho sobrenatural. E uma delas marcou-me para sempre, dando-me arrepios até hoje quando me lembro dela ou a conto a outras pessoas. Embora eu a tenha considerado fascinante, é aterradora. 

Na época em que se passa esta história, a filha da família cuja casa eu frequentava, era bastante jovem, com menos de 18 anos. Seus pais tiveram apenas dois filhos; o mais velho, Arthur, tinha o mesmo nome do pai, conhecido como Arthurzinho; e a Fátima.  Naquela época, não era comum os jovens saírem para o que chamam hoje de balada, embora fosse uma época com muito menos violência do que atualmente. Vivíamos o período do governo militar em nosso país e havia um controle muito grande sobre o que a população vivia, além de não haver tantas casas noturnas como hoje. Os pais, em geral, tinham grandes preocupações com seus filhos durante aqueles anos de chumbo, ficavam mais tranquilos quando tinham seus filhos e amigos reunidos em festinhas nos lares, pois estariam de olho neles e saberiam quem eram os seus amigos. Não havia a preocupação com as drogas, a não ser quando os filhos entravam para a faculdade, pois estariam em um ambiente fora de seus controles e corriam soltas as histórias de jovens envolvendo-se com dragas no meio universitários. Foi também um período em que aquela geração cresceu infantilizada e um tanto quanto alienada, pois qualquer envolvimento político, principalmente de esquerda, era um sério risco à dita ordem pública e ao interesse nacional. A Guerra Fria moldava o comunismo como algo diabólico e o capitalismo como a salvação do mundo. Vários livros eram proibidos de serem vendidos, a censura corria solta na imprensa, na música popular, no cinema, no teatro e até na televisão, com a outra paixão nacional, a telenovela. Assim, encontros de amigos para ouvirem música juntos, jogarem futebol e vôlei ou algum jogo de tabuleiro, além das festinhas que se multiplicavam, e outras brincadeiras que ocupavam os dias monótonos. 

Em um ambiente tornado o mais asséptico possível pelos pais para que os filhos não se contaminassem com ideias preocupantes, é que se passa esta história. O que parecia ser uma brincadeira inocente e inconsequente, tomou um ar de tragédia, ao menos para a família da Fátima e do Arthurzinho. 

Certo dia, um dos amigos de Arthurzinho, Fábio, apareceu junto com a namorada, Sandra, na casa dos irmãos, carregando uma caixa contendo um novo jogo, que ninguém o conhecia, nem de ouvir falar. 

É um jogo superlegal que ganhei de um tio que veio da França. Tenho certeza de que vocês vão adorar. 

Mas que jogo é esse? - perguntou Arthurzinho, curioso. 

— É conhecido como OUIJA.  

— Que nome estranho! — comentou Fátima. 

—  Meu tio disse que é a palavra “sim” em francês e alemão. 

 —  Abre logo para a gente ver, pediu Fátima. 

Fábio abriu a caixa e retirou de dentro um tabuleiro retangular de madeira com aproximadamente meio metro de largura, adornado com arabescos nas extremidades e letras e números dispostos em um formato de olho, tendo, inclusive um só olho aberto ao centro, com as letras em arco acima e os números, abaixo. Encimando as letras, havia três palavras escritas: “yes” à esquerda, “no” à direita, e “ouija” ao centro. Abaixo dos números havia escrito “good bye”.  

—  Que estranho! —   disse Fátima, repetindo a mesma palavra usada quando ouviu o nome do tabuleiro. —   E como se joga isso? 

—   É preciso usar este indicador de madeira. —   E Fábio tirou da caixa um objeto em forma de gota, achatada, feito de madeira. 

—  Mas o que faz? —   Insistiu Fátima. — Como se joga? 

Fábio não respondeu imediatamente à pergunta da jovem, criando uma expectativa nos amigos. Abaixou levemente a cabeça, mas com os olhos voltados para frente, a cabeça virando para a esquerda e para a direita, como se estiver buscando algo ou observando se o ambiente era seguro. Por fim, disse, com voz cavernosa: 

—   Com este tabuleiro, nós podemos nos comunicar com os espíritos. 

A porta da frente da casa ainda estava aberta e fechou-se neste instante com tanta força que os quatro jovens pularam de susto. As duas meninas chegaram a soltar um breve grito. Vendo que era apenas a porta que havia batido, começaram a rir. 

—  Mas que brincadeira mais idiota! —   disse Sandra.  Não sei se vou querer brincar com isso. Para mim, o mundo dos espíritos é coisa séria. 

—  Deixa de ser boba, meu bem! —  disse Fábio para a namorada. —   É só brincadeira! Não precisa ter medo. 

—  Não me parece brincadeira! —   retorquiu ela. 

—   Eu também não sei não! —  interveio Fátima. —  Eu estou achando esse jogo muito estranho! 

—   Ora, vamos parar com isso, gente! — impôs Arthurzinho. —  Vai, Fábio, mostra pra gente como esse jogo funciona. 

Fábio pediu que todos se sentassem à mesa redonda da sala, e posicionou o tabuleiro bem no meio. Em cima do olho impresso, colocou o indicador de madeira em forma de gota achatada. 

—  Agora, vamos colocar juntos, os quatro, a mão sobre este indicador, bem levemente, e podemos fazer a pergunta que quisermos aos espíritos.  

De repente, os quatro jovens sentiram um arrepio e como se fosse um vento frio entrando na sala. Arthurzinho foi o primeiro que fez uma pergunta. 

—  Há algum espírito aqui nesta sala agora? 

Silêncio total! Ouvia-se apenas as respirações nervosas dos jovens. Porém, em seguida, o indicador de madeira começou a deslizar pelo tabuleiro, levando consigo os dedos dos jovens, que se olharam, sorrindo, mas inquietos, cada um pensando em qual deles estava empurrando o indicador, que continuou a deslizar até parar na palavra sim. 

—   Sim! —   exclamou Arthurzinho! —   Tem um espírito nesta sala. 

—    Besteira! —   rebateu Sandra, dizendo isso mais para si mesma do que para os outros, tentando tranquilizar-se. 

—  Foi um de vocês que empurrou essa madeira pelo tabuleiro! —  disse Fátima, também tentando convencer a si mesma. 

—   Vamos continuar ou parar? —  perguntou Fábio, olhando para os outros jovens. 

—   Por mim, eu paro! —   respondeu Sandra. 

—   Eu também! — concordou Fátima. 

—  Eu sou a favor de continuar! —  contrapôs Fábio. 

—   E eu também sou a favor! —  exclamou Arthurzinho. —   E como eu sou o mais velho e como deu empate, o meu voto é o decisivo. —   e bateu na mesa com a palma da mão. —   Decidido! Vamos continuar. 

Todos colocaram novamente os dedos sobre o indicador recolocado ao centro do tabuleiro e Arthurzinho perguntou: 

—  Você é mulher? 

O marcador deslizou até o “não”. Sendo, portanto, um homem, Arthurzinho fez outra pergunta, enquanto as jovens sentiam-se amedrontadas e Fábio sorria com satisfação ante o medo estampado no rosto delas. 

—   Como você morreu? —  continuou Arthurzinho a perguntas. 

O marcador foi percorrendo uma a uma as letras do tabuleiro até formar a palavra “suicídio”.  

—  Deus me livre! —  gritou Fátima, persignando-se. —  Eu não quero mais participar disso. 

—  Calma, mana! É só um jogo, uma brincadeira. Do que você tem medo? Provavelmente é o Fábio que está empurrando o indicador. 

—  Eu não! —  defendeu-se o rapaz. 

Após ser tranquilizada, Fátima continuou na brincadeira. 

—   Qual é o seu nome? —  perguntou Fábio. 

O indicador formou a palavra “Fernando”. 

—  Você viveu nesta casa? —  titubeou Fátima, temendo que alguém tivesse se suicidado ali. 

—  Ô mana, você esqueceu que nós somos os primeiros moradores desta casa? Que papai comprou assim que ela foi construída. 

—  Graças a Deus! —  disse Fátima, persignando-se novamente. 

—  Você é parente de um de nós? —  inquiriu Arthurzinho. 

“Sim”. 

—  Você é da minha família? —   adiantou-se Fábio. 

“Não” 

—   Da família da minha namorada Sandra? 

“Não”. 

—  Da minha? —  perguntou Fátima, temendo pela resposta que viria. 

“Sim”. 

—  Da parte da mamãe?  

“Não”. 

—  O que você é do papai? —   ousou perguntar Arthurzinho, sentindo um tremor invadir o seu corpo. 

“Irmão”. 

Após olhar para os outros três, Arthurzinho começou a rir e disse: 

—  Papai nunca teve irmão! 

E eles suspiraram aliviados. Mesmo com as garotas querendo desistir desse jogo assustador, os rapazes não concordaram e continuaram a fazer perguntas. 

—   O que você quer? —  perguntou Fábio. 

“Companhia”. 

—  Credo! Credo! Credo! —   repetiu Fátima, traçando o sinal da cruz sobre si a cada exclamação. 

E sem, que houvesse pergunta, o marcador de madeira começou a deslizar pelo tabuleiro com os dedos dos quatro em cima. 

“ V  o  u   l  e  v  a  r   u  m  d  e  v  o  c  ê  s   c  o m  i  g  o”. 

—   Para mim chega! —   disse Fátima, levantando-se da mesa e saindo da sala.  

Arthurzinho, Fábio e Sandra ainda ficaram conversando sobre o que acontecera, rindo muito, mas um riso mais nervoso do que de diversão. 

 

 

— Mamãe, você sabe me dizer se na família do papai tem ou teve alguém chamado Fernando? —  perguntou Fátima à mãe no dia seguinte. 

Dona Risoleta parou imediatamente de fazer a comida e olhou para a filha, surpresa. 

—  Por que você quer saber isso? 

—   Nada, só curiosidade mesmo. 

—  Curiosidade assim do nada? 

—  É... só para saber... 

Silêncio. 

—   Tem? 

—  O quê? —  disse a mãe. 

—  Alguém chamado Fernando. 

Dona Risoleta sentou-se à mesa da cozinha e, olhando para a filha, disse: 

—  Sim, teve. Acho que agora você está crescida o suficiente para saber de seu tio Fernando. 

Quando ouviu isso, Fátima levou tamanho susto que literalmente quase desmaiou. Sentiu-se tonta e, se não estivesse sentada, com certeza cairia. Começou a sentir um enjoo e seu corpo cobriu-se de suor, sua face ficando pálida como se fosse feita de cera. 

—  Filhinha, o que foi? O que aconteceu? O que você está sentindo? —  e colocava a mão na testa e no rosto da filha. —  Você está toda molhada e gelada! O que aconteceu. 

A mãe pegou um copo de água com açúcar e fez Fátima beber um pouco, enquanto enxugava o suor da face da filha com o pano de prato que tinha à mão. Após recuperar a respiração e voltar-lhe a cor à face, Fátima perguntou à mãe: 

—  Como eu nunca soube que papai teve um irmão? Eu nunca ouvi falar em seu nome. Eu nunca vi um único retrato dele. O que aconteceu com ele? 

Respirando fundo, dona Risoleta disse à filha: 

—  Antigamente, em casos como esses, as famílias destruíam as fotos e os nomes dessas pessoas passava a ser impronunciáveis. É como se nunca tivessem existido. Era uma vergonha para as famílias. Nem podiam sepultar em cemitério cristão. 

Fátima já ouvira falar sobre algo assim, quando havia um parente que se suicidara. Mas era coisa dos antigos. Mesmo já sabendo a resposta, mesmo assim ela perguntou à mãe. 

—  Do que ele morreu? 

A resposta foi dita em voz baixa, quase um sussurro: 

—  Ele se matou... 

 

Passaram-se os meses e a história com o tabuleiro Ouija foi sendo esquecido pelos quarto envolvidos. Fábio desmanchara o namoro com Sandra, Fátima ingressou na faculdade de Engenharia e Arthurzinho estava trabalhando em sua loja de peças automotivas, aberta há pouco tempo.  

Arthur, o pai de Arthurzinho, ajudara a completar o dinheiro necessário para a abertura da loja que retirou de uma caderneta de poupança preparada para a sua aposentadoria, para não ter de diminuir o padrão de vida ao aposentar-se. Homem correto e firme em sua personalidade, tinha certa dificuldade para expressar amor, principalmente em relação ao filho. Com Fátima conseguia ser mais afável e carinhoso. E depois que financiou parte da loja de Arthurzinho, sempre estava perguntando sobre o andamento do empreendimento, se estava dando lucro, se conseguia arcar com todas as despesas, inclusive de aluguel e, nunca deixava de perguntar quando o filho lhe devolveria o dinheiro emprestado. Afirmava que fizera o empréstimo a ele sem pedir juros, mas se fosse demorar a devolver, teria de acrescentar juros e correção monetária, para que esse dinheiro, destinado à sua velhice, não perdesse o poder de compra. 

A verdade é que a loja não estava indo como Arthurzinho esperava. Além da grande concorrência, o valor do aluguel era muito grande e havia o salário e encargos sociais de um único funcionário, que ele precisara contratar para que a loja não ficasse sozinha nos momentos em que ele tinha de se ausentar para tratar de assuntos do próprio comércio. O jovem foi sendo tomado por uma angústia e ansiedade, beirando a depressão. Estava mais calado e, em casa, à noite, quase não saía do quarto. Deste, muitas vezes ouviu seu pai dizer à sua mãe, na cozinha, que ele entrara em uma fria ao emprestar o dinheiro ao filho. E sempre completava dizendo que o filho não tinha capacidade para ter negócio próprio. 

Foi em um domingo à tarde, tranquilo, em que toda a família do seu Arthur estava em casa, que tudo aconteceu. 

O seu Arthur estava na casa do vizinho assistindo a um jogo de futebol, dona Risoleta preparava um lanche junto com sua vizinha, para comerem após o jogo, Fátima estava sentada à mesa da cozinha estudando para aprova da faculdade que teria naquela semana e Arthur estava na rua com alguns amigos. 

Da mesa em que estava, Fátima podia ver a porta do quarto do irmão. Ela não prestou muita atenção ao que estava acontecendo, focada que estava nos estudos. Mas, sem muito interesse, ouviu quando o irmão entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Lembrando, futuramente, este dia, algumas imagens foram se tornando mais nítidas em sua mente. Depois de todo o ocorrido, quando o irmão entrou no quarto parecia-se com seu pai, porém mais novo. No entanto, naquele momento, não se deteu nisso. Logo em seguida, um estampido alto, forte, seco, ecoou por toda a casa e invadiu até a casa do vizinho. Correndo, entraram em casa os pais e os vizinhos de Fátima, que chegaram no momento em que a filha, parada à porta já aberta do quarto do irmão, deu um grito desesperador. Arthurzinho estava caído no chão, com um revólver ao seu lado. De sua têmpora direita escorria um sangue fortemente vermelho, como Fátima jamais vira e cuja intensidade e brilho nunca esqueceria. 

No velório, com familiares e amigos inconsoláveis, a história do tabuleiro de Ouija foi passando de amigo a amigo. O que haveria de realidade em tudo aquilo? Seria possível que um suicida levasse outra pessoa a tirar a própria vida para não ficar solitário na eternidade? Alguns acreditavam que sim. Outros, que fora tudo apenas uma coincidência. Triste, terrível, trágica coincidência. A verdade? Somente Deus o sabe! 

 

Nelson Ricardo Cândido dos Santos 

02 de setembro de 2024